FRANCISCO NOS OLHOS
Francisco, não de Assis mas de Holanda. Francisco nos olhos azuis. Francisco que canta a canção dos olhos: Chico. Ele estava à toa na vida e compôs canções que o Brasil inteiro cantou. O homem que contava dinheiro parou, o velho fraco, o pivete, o malandro, a moça feia, o faroleiro que contava vantagem, a namorada que contava estrelas, todos pararam para ouvir.
E o que será que ouviram? Ouviram uma canção , que será uma declaração de amor e outra igual nunca haverá. Cantada por um cantor e compositor que igual não há e nunca haverá. A canção que fez o malandro, os pigmeus, a mulata, o nego maluco, o rei de ramos, o corsário do rei e os napoleões do sanatório dançarem. A canção que não pára de tocar como uma roda que não pára de girar. Iolanda não pára de rodar, João Gilberto, Caetano, Gil, e Betânia e Vinícius onde estiver não param de rodar pois a roda viva não pode parar .
Com toda a Brahma, com todos os jogos de futebol, com todos os discos e livros, com tudo o que acontece no Brasil, que só Deus pode explicar, a gente continua ouvindo a vida que o Chico está a cantar.
Na cidade dos artistas, a cidade ideal onde há a pousada do bom barão, o grande hotel, e moram Beatriz, Rita, Tom, Dr. Getúlio, Iracema que voou, Lola, Madalena que foi pro mar, Maria e Nicanor, Pedro pedreiro, Sílvia, Teresinha triste, gente humilde. A cidade cantada por Chico é a feliz cidade, a mais bonita, a do sonho, a cidade do bom tempo, onde há a bolsa de amores, no morro dois irmãos, onde todos estão cantando no toró a cantiga de acordar como um samba de adeus, um dueto cantado com açúcar e com afeto servindo para a ciranda da bailarina, carioca, Cecília, Carolina dançar no chão de esmeraldas onde passa uma cobra de vidro sob a lua cheia da meia-noite de verão. Ao Meio ¿ dia, meia-lua, não sonho mais na noite dos mascarados, a outra noite, quando o circo místico embalou o meu suburbano coração de tanto amor, tantas palavras, tanto mar, tanto amar, todo o sentimento, uma menina, um novo amor que começa com uma canção inédita, e depois termina com uma canção desnaturada, um chorinho, último blues, umas e outras num bar qualquer.
Ao despertar no primeiro de maio, na casa de João de Rosa, ouço uma palavra de mulher:
¿ Vai trabalhar vagabundo. Se eu fosse seu patrão na linha de montagem...
¿ Logo eu? Cala a boca, Bárbara! Tira as mãos de mim, você não ouviu uma palavra, biscate, galinha, o amor já passou. Vai passar todo o sentimento.
Desencontro, desalento, desencanto, a despedida, como um samba de adeus:
¿ Tchau, tchau.
¿ Pois é, você vai me seguir, basta um dia, outra noite, o cotidiano, é tão simples...
¿ Você não ouviu, imagina só, todo o sentimento, romance, nosso bolero, qualquer amor é um sonho impossível.
¿ Mil perdões, fica, meu namorado, eu te amo.
¿ Mulher, vou dizer o quanto te amo
Quando o carnaval chegar, tem mais samba, todos juntos na verdadeira embolada para todos, desembolada benvinda pelas tabelas. De volta ao samba, samba do grande amor, de Orly pra Vinícius, samba e amor...qualquer amor é uma corrente, um cordão, este é um samba que vai para a frente de todas as maneiras. Sonho de um carnaval, sonhos sonhos são, sem fantasia, sobre todas as coisas, sob medida, sol e chuva.Vai levando a vida, viver do amor ouvindo a valsa brasileira, dos clowns, valsa rancho na veneta do meu violão.
Olê, Olá, onde você estava pedaço de mim? Morena de angola, de doze anos, meu refrão na flor da idade, dos olhos d¿água, maninha, maravilha paroara ,pássara, passaredo, partido alto. Cadê você, bem querer, a mais bonita, a moça do sonho, a rosa, a noiva da cidade, que fez soar a opereta do casamento felicitá. Um tempo que passou, essa moça tá diferente... rabichada...quem te viu e quem te vê. Ela é dançarina, está na foto da capa, num retrato em preto e branco, e tem uma tatuagem. Ela e a sua janela e se ela desatinou é porque é dura na queda, será que Cristina volta? Não, então deixe a menina, meu caro amigo, essa passou.
Ela é a bela e a fera sou eu que tive um dia de cão, fiz uma ode aos ratos, mas boi voador não pode, ao sabiá, ao jumento, à ostra e o vento, , o cio da terra, à flor da terra, à flor da pele.
Essa foi a gota d¿água. E veio a batalha, a caçada na carreira, o desafio do malandro, um murro em ponta de faca, trapaças, piruetas, esconde-esconde, mano a mano, cara a cara, olhos nos olhos, até que na estação derradeira, no brejo da cruz soou a opereta do moribundo... malandro quando morre recebe a última homenagem ao malandro: feijoada completa e uma marcha para um dia de sol.
Eu sou a árvore do fado tropical do frevo diabo, conto a história de uma gata , canto o hino da repressão, imagina só, o hino de duran, o tango de nancy, tango do covil, o xote de navegação na embarcação, sei a receita para virar casaca de neném, danço a quadrilha, realejo, bandolim, piano na Mangueira e ainda escrevo a paródia e o soneto no folhetim. Li o salmo, estive no tablado mambembe, mambordel, no showbizz, e na televisão, em hollywood, no Baixo Leblom, rio 42, tamandaré, e em fortaleza. Eu sou de lábia leve, baticum, cambaio. Meninos eu vi os futuros amantes geni e o zepelim levantados do chão, e o meu caro amigo Léo supõe, vence na vida quem diz sim . Na roda viva da vida, no moto-contínuo da rosa-dos ventos passa o tempo e artista fica. Trocando em miúdos, ainda estamos aí, eu sou o velho Francisco deus lhe pague por me dar ouvidos.
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Gregory Grimaud, Luiz Fernando Borges Pereira e Patrick Berlinck
ser ou não
não sou ninguém
e não sou eu
não sou você
e nem sou nada
não sou
não sei
não vou
mas sou ninguém
sou eu sou nada
e sou você
e sou sem ser
sem ter
sem ver
sem nada
não sei se sou
não sei quem sou
não sei de mim
perfilho reticências infinitas
meticuloso - ponto a ponto
se me apoquento
esfrio ao vento
me provo e saboreio
quase ao ponto...
ponto
É difícil admitir que me dei um tiro na cabeça.
O ferimento ainda dói. Depois de tanto tempo em coma continuo sentindo a dor que percorre o caminho que a bala fez até o meu cérebro.
A dor é parte do processo de convalescença, faz parte do tratamento. Mas a dor interna, aquela que agride como mil socos e fere como milhões de agulhas espetadas no espírito não é atenuada por nenhum analgésico inventado pelo homem: a consciência pesada fere mais do que uma bala na cabeça.
O sono não traz alívio , apenas pesadelos . Esta não é a vida que sonhei para mim, uma vida de pesadelos pesados de culpa na solidão da noite.
Eu ficava à noite sozinho na sacada do meu belo apartamento, olhando as estrelas. Eu sentia que o brilho delas era muito superior ao meu, que definitivamente eu não era um professor brilhante.
Observava a noite escura com as estrelas brilhantes, tentando fugir do sono com sonhos ruins que me aguardava. Pensava que eram todas estrelas mortas , que o seu brilho chegava a nós tarde demais. E pensava que tudo o que brilhava era porque estava morto, e se eu não brilhava era porque eu era um homem vivo. Mais havia uma maneira de eu brilhar nas trevas noturnas que eram a humanidade: o suicídio me tornaria uma estrela.
O que é um corpo em coma deitado numa cama de hospital, se não mais pode brilhar, se não mais pode amar, se não pode mais ensinar. O que é? Não é nada.
E mesmo assim eu era um nada digno da atenção de alguém, um padre que me visitava constantemente trajando sua batina negra como aquela noite que eu via da sacada. Eu achava a presença de um padre no momento que antecedia a morte de alguém uma atitude de urubu ou carrasco. Era irônica a visita de um padre carrasco a um paciente recém saído do coma; ou estava ali para fazer a extrema-unção , ministrar o sacramento final a um ateu, ou só serviria para me perturbar . Era engraçado pensar que os médicos vestiam branco para salvar vidas e os carrascos vestiam preto para tirar as vidas. Mas talvez fosse apenas um carrasco visitando outro, para trocar confissões, pensei, sem ter noção de que me aproximara da verdade.
─ Eu confesso que matei a sede por conhecimento dos meus alunos, admito que quase morri para a busca pelo saber , e padeço o coma por não ter feito nada para me redimir destes graves erros.
─ E eu agradeço por você ser um assassino de estrelas, você apagou o brilho nos olhos do seus alunos ao longo de toda a sua carreira. O céu estrelado de estrelas mortas que você vê na noite escura é de sua criação. Eu agradeço por ter criado um céu tão escuro quanto o hábito que envergo.
E ele se foi. Apenas depois descobri que fora visitado e estivera me confessando e conversando com o diabo, vestido de padre ¿ da mesma maneira que a minha beca de professor escondia um ator, um mentiroso.
Ele era o reitor da universidade onde eu ensinara por tantos anos: a Unig, a universidade da ignorância.
Recebendo alta do hospital, retornei para o meu apartamento cheio de bugigangas acumuladas ao longo dos anos recebendo sem merecer o meu salário de professor.
Novamente me deparei com a sacada que me revelara a verdade insuportável, que levara-me no auge do desespero a tentar ceifar a minha própria vida.
Estava totalmente sozinho, e nem mesmo era capaz de me recordar onde estava a minha esposa. Irônico alguém ter tantas coisas mas não ter alguém para dividir. Onde estaria a minha esposa? Qual era mesmo o seu nome, esquecido na amnésia do tiro que eu mesmo dera-me?
Abri o meu armário embutido pois sabia que ele representava o peso do ódio, a cobiça, e a mentira enrustidas em mim. Nele estavam as roupas que usara para me fazer do que não era, os sapatos utilizados para andar por onde não devia, a coleção dos relógios do meu tempo perdido no palco de aula onde era encenada a farsa da minha não-vida. Ali estavam os livros cujos ensinamentos eu deturpara e os cadernos de anotações das mentiras contadas por mim. Havia também uma esfera de cristal, uma bola que fôra oferecida de presente pela minha esposa, e que nunca dera valor. Fui até a sacada.
Joguei as roupas aos indigentes que não tinham o que vestir.
Joguei os relógios aos que perdiam o precioso tempo de suas vidas.
Joguei os livros aos que ignoravam as verdades que eles continham.
Preservei a bola de cristal por algum motivo, eu não entendi o que ela simbolizava para mim. Somente quando esvaziei todo o armário enrustido da minha vida embutida descobri onde estivera a minha esposa: morta no meu armário. Então eu me lembrei do seu nome: Vera. Então eu me lembrei do motivo que me levara a tentar o suicido: eu havia matado a Vera, tinha ceifado a veracidade da minha vida, estava sozinho porque nunca tivera verdades comigo. Então eu me lembrei do que Vera me dissera quando dera-me o presente.
─Esta esfera tem a pureza que quero que você tenha, a transparência da qual você precisa para ensinar... não só absorve, mas também deixa passar a luz através dela, nunca a retendo para si mesma .
No dia seguinte fui até a universidade decidido a falar a verdade aos meus alunos.
Cheguei na sala de aula, onde um sem número de pupilos e pupilas me olhavam...pupilas dilatadas mas ainda havia brilho em seus olhos, o brilho da vida. Subi no palco, e me senti como se estivesse na sacada do meu apartamento vendo as estrelas do universo.
─Vocês são estrelas no céu escuro, nasceram para brilhar em suas vidas ; buscando a verdade, brilharão como estrelas no céu escuro do universo. Nisto consiste a universidade. É facultativo a cada aluno interpretar como quiser a verdade que lhe é ensinada, mas ao professor é obrigatório ensinar a verdade tal e qual ela é, com transparência transmitido a luz do saber . Nisto consiste a faculdade.
Os alunos me ovacionaram, mas eu devia muito mais a eles do que eles a mim. Reparei segurava a bola de cristal em minha mão como um amuleto.
Naquela noite retornei ao meu apartamento de solidão. Fui até a sacada segurando a esfera, para ver as estrelas brilhando mais do que nunca no céu. Eu olhava a esfera, e só podia lamentar por Vera não estar ali comigo.
Mas de repente, senti um toque nas minhas costas, virei-me e lá estava Vera. Com o susto deixei a esfera cair, porém ao invés de se espatifar no chão ela subiu ao céu estrelado e brilhou ao lado das estrelas. Eu havia me redimido, minha alma estava salva.
Documento rescrito depois de apagado. Baseado em Confesso Admito e Padeço de FCV, um professor universitário
Gregory Grimaud
Delicada mente
Comecei a aprender a arte dos pequenos...
Ter o mínimo de expectativa
para não se frustrar
A arte dos humildes
usar um mínimo de títulos
para ser respeitada
A arte dos sintéticos
aplicar um mínimo de adjetivos
para substantivar a essência
A arte dos pobres
economizar no luxo
para valorizar a qualidade não-paupável
A arte dos sutís
não cair matando sobre quem erra:
deixar que os outros percebam
A arte dos delicados
sair de mansinho quando já é hora
palavras poupadas, mente sã...
O verbo que brigou com a gramática
Você é a minha metáfora de amor... dentro da qual quero ficar elíptico sob os lençóis ,fazendo silepses de gêneros num pleonasmo vicioso repleto de hipérboles até que suspires os seus zeugmas saciada.
É polissíndeto,eu sei mas insisto: você é a minha alegoria, mesmo quando se perde em anacolutos e anástrofes fúteis, confundindo-se em hipérbatos. Contigo eu jamais cometeria uma sinédoque, mesmo que contra mim cometas uma metonímia em um momento de interrogação qualquer em que uma comparação entre mim e outro torne-me um eufemismo .
É hipérbole, dizes, mas o que posso fazer se é o que sinto na gradação dos dias que passamos juntos? Eu exclamo que a amo e você acha ironia e me ataca com antíteses que resultam em convenientes catacreses.
Quando eu lhe presentei com prosopopéias para alegrarem os seus dias,você agradeceu com doces perífrases e antonomáias, que no entanto não me iludiram...havia algo de barbarismo no que você dizia, uma cacoépia quase imperceptível denunciou que um estrangeirismo ameaçava a nossa sintaxe. Mas por você, eu suporto qualquer hibridismo, eu aceito até um solecismo ¿dane-se o que dizem os outros, eles são apenas plebeísmos que só vêem ambigüidade e cacófatos pleonásmicos em tudo.
Desculpe aquela colisão no pretérito imperfeito, mas os meus afixos não são de aço e o hiato daquele italianismo me fez perder a cabeça... e afinal, o que é pretérito é pretérito.
Enfim, Gramática, espero que me perdoe e não me julgue irregular e possamos continuar produzindo o nosso eco por muitos anos...
Sinceramente,
Verbo.
Gregory Grimaud
MUNDO RECRIADO
1:1:1
Reorganizara o mundo ao seu bel-prazer, criando novos gêneros literários, novos e maravilhosos gêneros musicais, novas espécies animais e vegetais. Dissera que as notas musicais eram oceanos e vice-versa e, por analogia, alterou o nome das notas musicais para o nome dos mares e vice-versa; assim criou marés-musicais e cada tempestade no mar era uma ópera: imaginou partituras encharcando-se com as ¿virtudes aquosas¿ das novas notas musicais.
1:2:1
Recriara todo um mundo de perfeição e brilho; cujas noites eram vermelhas e os dias azuis e imaginou o que aconteceria durante o eclipse de uma das muitas luas e como seria a visão de um eclipse neste orbe.
1:2:2
(cada bolso em sua jaqueta de couro representa uma verdade que rege a sua vida, e, no interior de cada um, há um objeto que simboliza isto).
2:1:1
E cada imaginação sua equivalia a uma realidade; o oposto também acontecia pois conhecia as quatro letras do sagrado nome.
2:2:1
Andou por sobre as águas e cada uma de suas pegadas formava recifes de corais; entusiasmado, bailou e sapateou sobre as imensidades marinhas, formando ilhas e arquipélagos de rara beleza.
2:2:2
Determinou que, a cada movimento ritmado de sua dança, os ventos formariam-se e seguiriam para sempre o belo padrão de sua dança e soariam em uníssono com as marés musicais, molécula contra molécula, colidindo ou prosseguindo paralelamente, num contraponto natural.
3:1:1
Moveu e teceu as teias das leis naturais com arrojo e destreza e entrelaçou coisas afins e estranhas a si mesmas, criando por mistura e miscelânea. Engastou as rochas e montanhas inteiras e insuflou vida no duro material inanimado; e montanhas moviam-se tal animais e emitiam avalanches-rugidos até o fim de suas existências, quando tornavam-se esculturas imóveis, monumentos à vida.
3:2:1
E os animais não moviam-se: brotavam e floriam em unhas e pêlos, em silêncio imóvel.
3:2:2
Os pássaros voavam nos dias azuis e pousavam em nuvens amareladas e quando gorjeavam chovia.
3:3:2
E os pássaros eram gregários e juntavam-se aos pares de acordo com afinidades.
3:3:3
(a profecia)
E quando todos formassem uma enorme entidade coletiva: e quando ela gorjeasse (miríades de gorjeios simultâneos), um dilúvio musical viria.
4:1:1
E eis que o criador combinou as quatro letras sucessivamente, gerando novas letras mais e mais até obter um alfabeto e guardou-o em seu bolso e aguardou.
4:2:1
E eis que o criador apanhou os frutos multicolores das árvores mais rápidas e fez com que caíssem no mar, formando curtas melodias de vida em germinacão e os frutos brotavam - braços e pernas - e tornavam-se entes dependentes dos acordes do mar (sem os quais não viveriam) e sem tolerância ao balé dos ventos.
5:1:1
O tempo passou e os peixes-fruta aproximaram-se mais e mais da terra e o tempo continuou a passar e alguns adaptaram-se à terra e evoluíram e tornaram-se inteligentes.
6:1:1
Veio o dia e o criador retirou o alfabeto de seu bolso - e o alfabeto tentou segurar-se pois não queria sair - e aguardou.
6:2:1
Alguns assimilaram melhor o alfabeto, assumindo o posto de líderes e o criador escolheu um entre os líderes.
7:1:1
O Um possuía uma cadeia de DNA que resumia todo o mundo e (eis) que era único por isso. E o criador abençoou este peixe com a noção de que o fim viria --quando todos os pássaros fossem um só e entoassem o último cântico.
7:2:2
Aquele peixe-andarilho e a sua linhagem foram profetas até o último dos dias sob o céu azul e das noites de céus vermelhos.
7:3:2
Até que, das nuvens amarelas surgiu um incomensurável som, um gorjeio inigualável, uma tempestade de melodias ensurdecedoras - cortada por solos ferozes - que calou as montanhas e parou as árvores e afogou os peixes sobre a terra.
7:3:3
Todos os livros - que eram confeccionados com a pele das árvores-animadas - ficaram submersos, letras borradas, as idéias nebulosas e todo o conhecimento perdeu-se nos últimos dias do mundo recriado.
Entretanto, o criador sorriu e o seu sorriso determinou que tudo no mundo recriado seria ciclo e assim foi (pois o Peixe-fruta líder, o Um, o primeiro profeta , que possuía a cadeia de DNA que resumia o mundo, foi posto num bolso em sua jaqueta) e o fim apontou para um novo começo.
GREGORY GRIMAUD
Once upon a time...
Era uma vez uma menina alegre. Ela era alegre porque as coisas mais simples a deixavam assim. Estar viva era para ela o milagre maior, e por esse milagre ela seria grata eternamente. E por ele, o milagre, era alegre.
Era uma vez uma menina alegre, que apesar dos anos passados, não deixou de ser menina.
Mas o tempo se incumbiu de fazê-la deixar de ser alegre.
E a alegria sua outrora companheira das cantigas de roda, hoje era apenas uma visitante ilustre, que vez ou outra dava as caras. Num domingo, ou feriado santo.
Era uma vez uma menina alegre que se tornou triste.
E a sua tristeza transparecia nos olhos doces, diziam. A menina triste descobriu que era frágil, e que ossos quebram.
Sua visitante ilustre espaçara ainda mais as visitas cada vez mais inoportunas. Não havia mais espaço para ela no seu mundo que de tão vasto e incomensurável limitara-se de súbito às quatro paredes do seu quarto.
Era uma vez uma menina-mulher triste que descobriu que a dor era companheira da melancolia. Essa sim, frequentadora assídua do cubículo no qual seu mundo havia se transformado.
Depois de séculos que não saberia precisar se foram feitos de dias, segundos, meses, minutos ou anos, a ilustre visitante retorna.
- Por que não abres mais as janelas?
- Por que tenho medo.
- Medo de quê?
- De descobrir que posso ser livre.
A visitante não espera a resposta para escancarar as janelas, e partir, da mesma forma que chegou.
era uma vez uma menina-mulher-triste. Parada diante das janelas abertas e querendo descobrir quais são as verdades que existem para ela lá fora.
E quantas delas lhe serão destinadas, e quantas delas serão destinadas a outrém.
Era uma vez uma menina-mulher, que não tinha mais medo.
Era uma vez uma menina-mulher que deixou de ser triste.
Ela passa as noites e os dias com as janelas e as portas abertas, esperando a alegria voltar....
Epitáfio de Gregory Grimaud
Nasci da união da mãe beleza e do pai força.
Eu sou a beleza da força.
Fui batizado no fogo das paixões.
Na crisma confirmei a minha fé no vento.
Comunguei no ar que sopra o espírito
Como as folhas secas das árvores, a minha eucaristia.
Confessei as montanhas os meus pecados
E descobri com o eco: as montanhas pecam como eu!
Assim ordenei-me o Sacerdote dos Ventos
Que agitam as águas e formam ondas,
Que levam as terras das planícies, e então
Selei o meu matrimônio com elas:
O casamento das areias com o vento
Que fez de mim - um grão - algo;
Eu sou grão de areia levado pelo vento.
O vento passou, como o tempo.
O vento fustigou a força do rochedo
(fez dele grãos de areia).
O tempo enrugou a beleza
(e fez dela velhice).
O vento, semeado em tempestade,
Ministrou a extrema-unção, e se foi.
Devolvendo-me para o infinito de grãos da praia
(Na praia, no tudo) o grão se converte em nada...
Queria escrever
Queria escrever num instante de histeria, num rompante, queria escrever como se hoje fosse o último dia, queria escrever como o mar azul refletido nos olhos da menina loira sentada nas areias da praia , como um garoto perseguido por três outros e se escondendo num bosque, escrever sem rima e sem métrica, sem gramática ou temas, leve e solto como quem voa ou lê deitado num quarto penumbral iluminado por luz tênue de um pequeno abajur assentado sobre um criado - mudo desgastado ou escrever como e portanto quando e entretanto, em latim espanhol, esperanto, esperando sozinho um ônibus debaixo de chuva, como judeus num campo de concentração, sentado num café amarelado tomando um martini ao pôr do sol de uma sexta - feira da paixão como parentes de luto num cemitério aguardando a extrema-unção diante de um mausoléu como um cordeiro na boca de um leão, queria escrever sobre os quadris requebrando da moça que cruza o seu olhar com o meu e sorri numa rua movimentada num dia ensolarado dourado como quem dobra a esquina e não sabe o que vai encontrar, como uma lagarta saindo da crisálida metamorfoseada em borboleta multicolor deixando para trás o casulo de seda, como quem salta de um lado a outro um abismo olhando para baixo , como um carro esporte vermelho à toda velocidade numa curva na estrada antes de se encontrar com um caminhão, queria escrever como uma adolescente voltando sozinha do colégio à noite e seguida por três homens na rua escura da solidão, como uma prostituta sob um semáforo vermelho sendo abordada por um homem que joga ácido em seu rosto, como um biplano amarelo sobrevoando uma planície florida de margaridas onde passeia uma camponesa vestida de branco, como um mendigo velho barbudo e esfarrapado bebendo cachaça num banco da praça, queria escrever como uma festa de debutante com danças jovens e doces damas, como um antigo álbum de fotografias aberto sobre a mesinha de centro sendo visto pela família reunida, como um mafioso cortando o dedo mínimo e oferecendo ao papa na mesa xadrez de vermelho e branco numa cantina no bairro italiano, queria escrever em mim, fechando o meu corpo tal e qual tatuagem literária como se eu fosse um livro e depois me ler e reler sem parar me parafraseando todo, queria escrever no chão e nas paredes de casa com lápis de cor como uma criança e contar as minhas efemérides, queria escrever como as rugas no rosto de um idoso solitário num asilo vivendo das lembranças de um passado que não volta mais como Cristo olhando da prisão para Pedro enquanto o galo canta três vezes, como uma jovem bruxa ruiva queimando na pira da inquisição, como um herbanário arrancando uma mandrágora na floresta para vende-la em sua banca no mercado, queria escrever como um escriba egípcio contando a história de Ramsés II traído por Moisés, queria escrever como um rabino enlouquecido rasgando o talmude e comendo as suas páginas(prove e verá que o senhor é doce), como uma traça comendo um livro raro numa grande biblioteca, queria escrever como um casal mergulhando sob águas translúcidas de um atol e se beijando em torno de águas-vivas e algas verdes , queria escrever como criminosos cavando um túnel sob o presídio, ou como um presidiário riscando as paredes para contar os dias no cárcere, como uma coruja pousada no muro de um cemitério, contra a lua à meia-noite do 31 de outubro , queria escrever como rastilho de pólvora que leva até um armazém repleto de munição e bum! como um lobo capturado numa armadilha roendo a pata para se libertar, como galos numa rinha na Nicarágua,como céticos agourando a procissão, como cegos pedindo esmolas com canecas de metal como doentes desenganados em macas no corredor de um hospital público, como um suicida escrevendo com sangue a última carta feita de pele humana , ou como um pintor pintando um quadro dele mesmo pintando um quadro,e fazer uma palavra descrever mil imagens, como uma cobra mamando no seio de uma mulher, como uma águia voando entre as nuvens vendo um coelho branco ao longe, como uma jovem cigana lendo a sorte num parque, como um açougueiro fatiando carnes ensangüentadas separando-as dos ossos, como um padre ouvindo a sua própria confissão, como um trem partindo durante uma nevasca e afastando namorados de olhos marejados e corações quebrados, como uma barca cruzando os canais de Veneza levando uma freira, como um monge tibetano entoando um mantra, como uma bailarina sem uma perna dançando sobre o palco, que é o mesmo que Deus escrevendo certo por linhas tortas. Queria escrever como um médium psicografando uma carta do além, como um tatuador, marcando a minha própria pele com palavras indeléveis, como um cirurgião fazendo uma incisão, como um dentista obturando um dente, como um escultor esculpindo, como um adolescente fazendo sexo, queria escrever... escrever como o vento escreve nas areias, como as águas escrevem nas rochas, como o incêndio escreve nas florestas como o rastro ondulado de uma cobra, como pegadas de um tigre... como Deus escreveu a criação no caos, como o sol escreve os seus fachos pela janela na poeira suspensa no quarto, como bolhas de sabão flutuando, como as nuvens escrevem no céu azul. Queria escrever com letras prateadas em folhas negras como estrelas num céu noturno, ou com a minha língua no céu da tua boca, com o meu olhar no seu olhar e com letras digitais na tela do celular, queria escrever sobre o conde de Saint Germain tirando as cartas para Giordano Bruno num bistrô na Baviera queria escrever outrora no outono antes que seja tarde e a estação passe, queria escrever com sementes de árvores no chão e plantar uma floresta poética, esboçar a minha autobiografia com sêmen no útero de uma menina e ver nascer o meu romance, um filho; queria escrever um manuscrito com as minhas garatujas ininteligíveis e desafiar um pesquisador a decifrar garranchos ilegíveis queria escrever um livro de capítulos dispersos na cidade, um capítulo de imprecações sobre o presidente em paredes de banheiros públicos, um segundo capítulo de mensagens cifradas de amor com corretor liquido em pontos de ônibus, um terceiro capítulo em grafites rúnicos no alto de prédios, e um longo capítulo no coração de uma bela mulher.
Gregory Grimaud
Voltando
O reflexo incomoda, mas não sei se quero chegar ou seria melhor que a estrada fosse ainda mais longa. Prefiro viajar de ônibus, há tempo para sonhar e planejar, mas aqui com o som alto e de coração acelerado, entre um carro e outro consigo produzir o resto dos meus dias. Decisões inadiáveis, projetos incrementados, resultados que visualizo, melhor do que as luzes que me ofuscam. Trabalho transfigurado em prazer, resultado em realizações, crescimento, tudo pronto, coração acelerado, livre, mas devo diminuir a força do pé que estou indo muito rápido. Alí é tão perto e tão pouco tempo mas a distância é suficiente para recarregar as expectativas. Abastecido de auto-estima avalio cada erro da rotina, reoriento a rota, cada ponto a ser mudado, projetos inadiáveis e tão antigos. Tenho saudade da volta mas um desejo muito maior de um desvio para o retorno. De onde parto é tudo mais completo mas confundo origem e destino. Um momento, já fiz esta viagem, planos sempre protelados, sentimentos que se acomodam como as malas na chegada até a próxima viagem onde tudo recomeça.
Marcelo Soares
Palavras -chove
Ando debaixo da chuva na noite escura , estou usando óculos , os sapatos e os meus cabelos estão encharcados; olho para o alto e vejo os raios iluminando as nuvens , um helicóptero sobrevoa a cidade como uma libélula de aço; é o dia do meu aniversário, e eu me lembro disso quase por acaso ao ver uma mulher grávida passando ao meu lado. Talvez porque ela fosse parecida com a minha mãe , preocupei-me com sua segurança e pensei o que uma mulher esperando um neném faria andando por aí numa noite escura de tempestade .Talvez ela tenha uma missão, ou simplesmente voltando para casa após um dia de trabalho, porque já foi o dia em que mulheres grávidas não trabalhavam. Talvez esteja se arriscando no concurso da vida, numa loteria de vida e morte, enfim, dando trabalho para o seu anjo da guarda com patentes militares; mas certamente o seu príncipe encantado não apareceria montado em seu cavalo branco para salva-la caso algo acontecesse. Atravesso a rua , olho para a esquerda e para a direita. Vejo um prédio baixo de quatro andares com uma marquise sob a qual um pobre cachorro encharcado como eu tenta se abrigar da chuva; e há também um maltrapilho ao seu lado, mais decadente do que o cachorro molhado, um homem com a cabeça entre as pernas , tentando se aquecer num fogo débil ao lado uma casca de banana e um naco de carne, restos da sua última refeição. Pobre homem, talvez seja uma pessoa deficiente, dizem até que professores, dentistas, inclusive médicos caem na mendicância; muitos afirmam que os vícios como o álcool e o fumo os atiram neste estado, mas eu tenho uma teoria diferente: a sociedade os atira neste estado e o álcool e o fumo são apenas rotas de fuga, passagens de emergência para os jogadores perdedores . De uma janela do prédio um japonês chupando um sorvete me observa como se eu estivesse nu, como se fosse eu o estrangeiro, mas tenho certeza que ele tem um espelho em casa e por mais cara de cubano ou judeu ,quem sabe, que eu tenha, não sou uma figura tão estranha para ser observado assim. Distraio-me, e caio numa piscina formada num desnível da rua - abastecida por uma cachoeira vinda da rua que a corta - , eu vejo uma seringa de injeção usada boiando, mas, felizmente ,uma onda a varre para longe. Bato a mão no bolso: a minha chave sumiu, levada pela enxurrada, e não adiantava procurar naquele mar de lama que poderia até esconder um destes jacarés do tipo que as lendas urbanas dizem vagar por aí. Eu me desespero por um instante, se tivesse um carro isto nunca teria acontecido...olho para o alto e o japonês está sorrindo como se tivesse gostado do que viu. Ao meu lado um telefone público toca, por impulso eu o atendo e uma voz gargalha , olho para a janela e vejo o maldito japonês ao telefone e, por um momento, apenas por um momento, imagino se a chuva, a mulher grávida, o cachorro, o japonês chupando sorvete se tudo é uma armadilha para no dia do meu aniversário perder as chaves de casa.
Gregory Grimaud
"Sorrir
quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
os teus dias
tristonhos vazios"
E me pegou assim de surpresa. A música que vinha do rádio nem sabe o quanto me toca.
E fui e vim. Fui e vim e fui e vim e fui tocando em frente sem nem me dar conta o quanto me era bem vindo o sorrir que, dá música, vinha. Saí então sorrindo e vindo e indo.
Quando daqui saí, saudades sentí e quando de lá me vim, saudades de lá carreguei. Que vida essa da gente que vive dizendo adeus. E pedindo a Deus pra não mais tirar da gente tanta gente...
"Sorrir
quando tudo terminar
quando nada mais restar
do teu sonho encantador"
Sento e penso em escrever, e escrevo! O que pode acontecer agora? Nada. Tudo. Uma ou outra. Nada ou tudo.
O que quero que aconteça? O nada ou tudo?
O tudo.
Quero que aconteça o tudo e porque será que a palavra aconteça insiste em sair errada. Porque o aconteça vem com erros. Por quê não acontece certo?
Tudo ou nada?
Tudo.
"Sorrir
quando o sol perder a luz
e sentires uma cruz
nos teus ombros
cansados doloridos"
Dois, Três e mais mundos se confundem ou não se confundem. Mundos são mundos e não há razão pra confundí-los. Mundos nem são tão assim...simples.
Eu, simples que sou não me entendo bem.
"Sorrir
vai mentindo à tua dor
e ao notar que tu sorris
todo mundo irá supor
que és feliz"
E o Waly Salomão resolveu ír embora pra sei lá onde. Foi-se e ficamos nós, apenas com suas palavras. Perdemos a sua interpretação o que nos leva a colocar a nossa em jogo. É muito mais difícil interpretar-mos. Mas a vida é assim...uma interpretação de nós mesmos com a ajuda dos outros. Waly anda por aí. Porque:
"Vale a pena ser poeta.
escutar você torcer de volta
a chave na fechadura da porta
Abra, volte, veja
Sou um cara sem saída
Mas não se iluda com essa minha vida..."
Antonio Esperança
Há os que escrevem muito
e pouco traduzem o sentimento cru
Há os que pouco escrevem
e comovem a cada palavra
Há os que escrevem bem
Há os que nasceram prá escrever
Há os que escrevem por instinto
e assinam obras, sem saber.
Eu recomendo a leitura DESTE BLOG
escrito de maneira singular, despretensiosa,
mas naturalmente "iluminada"...
Ágata de A à Z
Amei ávido Ágata de A à Z,
ardorosamente apaixonei-me por Ágata.
Andei em meio a amarantos atinando andanças,
arvorei andanças arredio do ártico ao antártico.
Busquei no bê-á-bá dos becos
burilar beatitude em belvederes;
Bebi em bares e bibocas;
Belchior benzeu-me num bazar.
Caminhei contrafeito contornando crises;
Conheci crivos e criptas, covas,
coptas e confrades, corvos e covardes;
Copiei o colofão de um carcomido calhamaço.
Doutor dos débeis do devir,
deidade dos deuses desacreditados,
desvendei delicadas demonstrações de desprêzo;
Dei-me por mim, dirigi-me doravante.
Erigi estátuas estéreis, e
estandartes esplendorosos no este.
Escrevi estórias e entretive-me no Érebo;
emergi em meio aos eclesiásticos e escolásticos.
Faias forravam a frente da fazenda Fauna e Flora;
flagrei-me fitando o feitio de minha fronte em fontes;
falei de falhas e falcatruas aos frades da Filadélfia.
Feneci, formei-me em freixos frondosos.
Galguei grotas onde germinavam gramíneas
garantidas por suas glumas; girei em gírias,
granjeei os gracejos de Ágata, a gata:
gamei por ti numa gôndola em Goa, gozando dos gongóricos.
Hauri haxixe num habitáculo hediondo,
honrando a hecatombe dos hebreus;
Heurística e hermenêutica usei no haikai,
homenageando homens-hienas.
Imiscui-me em intrigas imorais;
Imolei ignaros e ignavos em igrejas;
Imergi em igapós e imigrei para ilhotas,
istmos e itaocas; iludi imortais ínclitos.
Jacente em jacarandás, na jangal um joá;
Jurei com júbilo fazer jus ao
jugo do juiz janota;
Jornada juramentada, jubiloso jubileu.
Lamentei lúgubre o levante em Lemúria;
Lembrei-me da loira ao ler um livreco;
Livrei-me lívido de ligações libidinosas;
Longe levo-me, livre da loira.
Mas na mata mesmo mimetizando,
menosprêzo dos meus meios,
murmúrios nos muros minuanos;
Morenas no mar de mel, milenares mulheres.
Nadei no néctar de nenúfares,
no nu da noite nevoenta,
no norte nimbar, noiva a ninar;
Nessoutro nigromante, ninfa nívea.
Outrora orgíaco ogro oprimindo
orbes orgíacas, ora obras, opúsculos;
Ofiófagos do Oeste, n`olho d`água
olheiros de olfato, orelhas e oligoquetas.
Parti pelas pradarias pardacentas,
predestinado paladino, pedra preciosa,
pretendente punido, perdido, pelado, proibido.
Pássaro preso, pégaso pêgo, páginas puladas.
Quisera querer querelas,
queimado por quimeras em
quermesses no quartel;
Quarta-feira, quinta-feira, quantas feras!
Rumas de ratos, roendo ruivas, reinando;
réstias rancorosas, Rômulo e Remo em Roma.
Ramos e restos de romãs,
reergui-me rápido e retruquei:
Sou senhor da sorte lançada,
sedutor das selvas fechadas,
salvador das senhoritas segregadas,
singrador dos seixos sulinos.
Trocei de tartamudos taciturnos;
Tropecei em troncos na Tasmânia;
Tracei tímidos traços na terra,
trilhas trípticas nas trevas.
Urrei no umbral húmido,
último Ulisses ufanista,
urge, ultimatum úmblico,
utopias e urros em uníssono:
Vi, vim, verifiquei vivo,
volto vitorioso de viagens vãs,
veios e vargens, vazantes, vejo você, virgem.
Xadrez xucro de ximangos e xexéu;
Xeque, um xis, xifóide, no xifópago;
Xucro xodó, xingando pelo xilofone.
Zarpo, trotando o zaino, zanzando ao zéfiro,
zêlos de um zé-ninguém,
zênite e nadir, zumbi do zodíaco
zunindo na zumbaia, por ti Ágata de A à Z.
Gregory Grimaud